
Projeto de lei que pune vazamento de grampos dá margem a interpretações que cerceiam a liberdade de imprensa e gera desconfiança entre os setoristas de política do país
“Vou te emprestar em confiança, em off”, disse Antônio Carlos Magalhães ao repórter Luiz Cláudio Cunha, num encontro reservado no gabinete do senador em março de 2003. Em seguida entregou ao jornalista um calhamaço de aproximadamente 800 páginas com transcrições de grampos ilegais. À época, Luiz Cláudio era editor de política da revista IstoÉ da sucursal de Brasília. Antes mesmo de o repórter dizer qualquer coisa, ACM disparou: “Isso [as transcrições] é uma ilegalidade”. A Constituição Federal determina que escutas telefônicas só sejam feitas com autorização judicial.
Feita sob encomenda do próprio senador – morto em julho de 2007 – por funcionários da secretaria estadual de Segurança Pública da Bahia, a operação criminosa grampeou os telefones de 232 pessoas em cinco estados e durante 15 meses – de novembro de 2001 a fevereiro de 2003. Entre os grampeados, estavam o ex-deputado e hoje ministro da Integração Nacional, Geddel Vieira Lima, o ex-deputado Benito Gama, desafetos, inimigos, ex-aliados e até uma examante do político baiano. Ao passar o conteúdo das transcrições para o jornalista, o senador pensou que este iria usá-lo para fulminar seus inimigos. Ledo engano. O repórter não apenas frustrou o plano de ACM, como também divulgou o crime que ele havia cometido.


